por Luciana Molisani | editora e desenhista gráfica da Lovely House
Foram muitos os livros vistos, muitos deles adoráveis sob diferentes aspectos. Resolvi compartilhar aqui cinco títulos, quatro fotolivros e um livro teórico, que me tocaram de maneiras diversas e que, carinhosamente, apelidei de Pirilampos MMXXV.
It starts with silence, de Richard Gosnold [Kehrer, 2021]
Fotolivros tem caminhada lenta pelo mundo e vida longa nas estantes. Quebrando o protocolo sobre os destaques anuais que muitas listas propõem, quero comentar sobre um fotolivro que atravessou comigo o ano de 2025 e que não necessariamente foi lançado agora. Tive contato com este título no ano passado, durante a curadoria da exposição Devolver o fogo, que partilhei com Daniela Moura, e o citei por diversas vezes, seja em cursos ministrados, seja em encontros na Lovely House. It Starts with Silence [Kehrer, 2021], de Richard Gosnold, aborda um assunto polêmico e delicado: o direito à interrupção da gravidez. Sua narrativa sensível e consistente, que entrelaça registros informativos e metáforas imagéticas ao longo das páginas, fez com que eu absorvesse a história do autor e de sua companheira de forma silenciosa e voraz. O casal compartilha com os leitores toda a insensibilidade de um governo perverso que, incompatível com o artigo 8 da Convenção Europeia de Direitos Humanos (o direito à vida privada e familiar), proibia o aborto de forma arbitrária sem se dar conta da devastação causada na vida de pessoas como a desse casal, obrigado a atravessar longos meses para, ao final, se deparar com a morte prematura da criança diagnosticada, desde o princípio, com a Síndrome de Edwards (Trissomia 18).
Algo do singelo, da poeira, das amizades-fantasmas, da conversa com seres imaginários, da folhagem arredia, do sussurro do vento, do cheiro de mofo, me transporta para muitos tempos simultaneamente cada vez que abro e folheio O tempo das coisas [Lovely House e Alter Edições, 2025]. Talvez porque o tal MA, conceito estético e filosófico japonês mencionado por Mayra Azzi durante o processo de edição do fotolivro, atue como uma dobra temporal, deslocando-me para um espaço entre a minha infância, a minha adultez e a minha envelhescência.
As coisas e o avô retratados em suas fotografias também me remetem à casa de meus antepassados, onde memórias e fabulações se entrelaçam às descobertas vividas ao longo das várias fases que a vida nos oferece. Uma névoa em que fantasia e realidade se confundem, algo que apenas uma casa que fez parte de nosso crescimento primário nos permite adentrar. A sensação de suspensão que Mayra, de modo cirúrgico, tece ao longo das páginas com suas imagens me faz enveredar pela magia que é imaginar-se naquele tempo com a alma de agora.
Algunos sentimientos no cambian junto a las estaciones, de André Djanikian [Selo Turvo, 2025]
O vermelho cheio de si que enfrenta a ameaça de um objeto pontiagudo na capa de Algunos sentimientos no cambian junto a las estaciones [Selo Turvo, 2025] hipnotiza meu olhar.
A ideia de que o tempo não opera como progressão, mas como camada me soa presente desde o título, que antecipa essa tensão entre mutação e permanência. As estações mudam, mas certos afetos permanecem. Não como repetição literal, e sim como ressonância.
Absorvo este fotolivro de André como uma paisagem emocional, onde o ambiente é menos um cenário que um agente que espelha ou abriga estados internos. Um território de intimidade e de contrastes, onde sentimentos se sedimentam e exigem de quem está à frente das páginas uma postura ativa para captar sensações de melancolia, de solidão ou do nada, mesmo em cenas grupais barulhentas.
Talvez aquele vermelho seja o sinal para que nossa mirada não se engane pela estabilidade do preto e do branco das imagens, mas que se atente ao resquício de tinta que mancha também nossas mãos.
Basado en hechos reales – derivas editoriales desde/con/contra el archivo, de Agustina Triquell [CdF, 2025]
Ao ler Basado en hechos reales – Derivas editoriales desde/con/contra el archivo [CdF, 2025], de Agustina Triquell, não me parece que o livro esteja interessado em reforçar a ideia, já muito debatida, de que vivemos uma saturação de imagens e que, por isso, deveríamos simplesmente deixar de produzir novas. O que o livro me propõe é algo mais complexo e, talvez, mais instigante: pensar que as imagens de arquivo ainda não se esgotaram porque seus sentidos tampouco se encerram no momento em que são produzidas. A interpretação das imagens, assim como a produção de sentido, ultrapassa quem as fez e se reativa no tempo, no encontro com outros olhares, outras perguntas, outros corpos. É nesse deslocamento que vejo um bom caminho para o gesto editorial operar, não como reaproveitamento, mas como invenção de novos relatos visuais.
Desde as primeiras páginas, sinto que Triquell me convida a reorganizar o tempo de maneira pouco confortável. Em vez de avançarmos em direção a um futuro visível, somos levados a caminhar com ele às costas, opaco, indeterminado, enquanto o passado se coloca à nossa frente, exigindo atenção, presença e responsabilidade. Essa inversão temporal atravessa a leitura e contamina a maneira como penso os arquivos: não como depósitos fixos, mas como territórios instáveis, que se movem conforme o modo como nos aproximamos deles.
A noção de tempo queer, que atravessa o livro, reforça esse deslocamento. Ao escapar da linearidade e da lógica do progresso, da vida regulada pelo relógio biológico, pela estabilidade e pela duração como valores universais e hétero-normativos, o livro abre espaço para outras intensidades vitais, frequentemente deslegitimadas ou consideradas perigosas. Pensar o tempo por esse viés desestabiliza tanto o futuro como promessa quanto o passado como herança intocável. E é justamente aí que o trabalho com arquivos ganha potência: não apenas nos arquivos das dissidências, mas em qualquer arquivo que precise ser reaberto, reolhado e desnaturalizado a partir de novos pontos de vista.
Comento aqui somente as provocações iniciais da autora. A obra segue com análises de livros de distintas editoras, dando conta, segundo Agustina, de duas grandes zonas de interesse e recorrência: o passado recente e as narrativas de si.
Quando me deparo com o título da obra de Linda Zhengová, Oxymoron [Untitled, 2025], sou imediatamente convidada a habitar o paradoxo. Essa figura de linguagem, que intensifica sentidos ao aproximar termos inconciliáveis, parece operar aqui não apenas como conceito, mas como método. Entro, então, no jogo proposto pela artista, tentando decifrar as chaves de um ensaio que se constrói na fricção entre opostos.
Linda nos conta que o impulso inicial desse percurso foi a tentativa desesperada de recompor-se após um relacionamento abusivo. Para isso, cria um alter ego noturno, não um disfarce, mas um dispositivo, um corpo outro que atravessa espaços e encontros, funcionando simultaneamente como proteção e exposição, e que lhe permite tensionar, e por vezes confundir, os limites entre vulnerabilidade e controle.
As imagens emergem da penumbra como aparições. Corpos repousam por instantes, fugazes, ou se oferecem com uma languidez vigorosa, entregando-se aos caprichos, às expectativas, aos olhares do outro. Há nelas uma ternura feroz, uma malícia que insiste em parecer inocente.
Oxymoron se apresenta, assim, como aquilo que a própria artista nomeia um “coquetel de pecados”, um gesto de travessia, talvez o único possível, para romper a anestesia emocional que havia tomado conta de Linda.
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Pirilampos MMXXV
por Luciana Molisani | editora e desenhista gráfica da Lovely House
Foram muitos os livros vistos, muitos deles adoráveis sob diferentes aspectos. Resolvi compartilhar aqui cinco títulos, quatro fotolivros e um livro teórico, que me tocaram de maneiras diversas e que, carinhosamente, apelidei de Pirilampos MMXXV.
It starts with silence, de Richard Gosnold [Kehrer, 2021]
Fotolivros tem caminhada lenta pelo mundo e vida longa nas estantes. Quebrando o protocolo sobre os destaques anuais que muitas listas propõem, quero comentar sobre um fotolivro que atravessou comigo o ano de 2025 e que não necessariamente foi lançado agora. Tive contato com este título no ano passado, durante a curadoria da exposição Devolver o fogo, que partilhei com Daniela Moura, e o citei por diversas vezes, seja em cursos ministrados, seja em encontros na Lovely House.
It Starts with Silence [Kehrer, 2021], de Richard Gosnold, aborda um assunto polêmico e delicado: o direito à interrupção da gravidez. Sua narrativa sensível e consistente, que entrelaça registros informativos e metáforas imagéticas ao longo das páginas, fez com que eu absorvesse a história do autor e de sua companheira de forma silenciosa e voraz. O casal compartilha com os leitores toda a insensibilidade de um governo perverso que, incompatível com o artigo 8 da Convenção Europeia de Direitos Humanos (o direito à vida privada e familiar), proibia o aborto de forma arbitrária sem se dar conta da devastação causada na vida de pessoas como a desse casal, obrigado a atravessar longos meses para, ao final, se deparar com a morte prematura da criança diagnosticada, desde o princípio, com a Síndrome de Edwards (Trissomia 18).
Compre na editora ou escreve pra gente, caso tenha interesse que a Lovely House importe este título.
O tempo das coisas, de Mayra Azzi [Lovely House e Alter Edições, 2025]
Algo do singelo, da poeira, das amizades-fantasmas, da conversa com seres imaginários, da folhagem arredia, do sussurro do vento, do cheiro de mofo, me transporta para muitos tempos simultaneamente cada vez que abro e folheio O tempo das coisas [Lovely House e Alter Edições, 2025]. Talvez porque o tal MA, conceito estético e filosófico japonês mencionado por Mayra Azzi durante o processo de edição do fotolivro, atue como uma dobra temporal, deslocando-me para um espaço entre a minha infância, a minha adultez e a minha envelhescência.
As coisas e o avô retratados em suas fotografias também me remetem à casa de meus antepassados, onde memórias e fabulações se entrelaçam às descobertas vividas ao longo das várias fases que a vida nos oferece. Uma névoa em que fantasia e realidade se confundem, algo que apenas uma casa que fez parte de nosso crescimento primário nos permite adentrar. A sensação de suspensão que Mayra, de modo cirúrgico, tece ao longo das páginas com suas imagens me faz enveredar pela magia que é imaginar-se naquele tempo com a alma de agora.
Compre aqui
Algunos sentimientos no cambian junto a las estaciones, de André Djanikian [Selo Turvo, 2025]
O vermelho cheio de si que enfrenta a ameaça de um objeto pontiagudo na capa de Algunos sentimientos no cambian junto a las estaciones [Selo Turvo, 2025] hipnotiza meu olhar.
A ideia de que o tempo não opera como progressão, mas como camada me soa presente desde o título, que antecipa essa tensão entre mutação e permanência. As estações mudam, mas certos afetos permanecem. Não como repetição literal, e sim como ressonância.
Absorvo este fotolivro de André como uma paisagem emocional, onde o ambiente é menos um cenário que um agente que espelha ou abriga estados internos. Um território de intimidade e de contrastes, onde sentimentos se sedimentam e exigem de quem está à frente das páginas uma postura ativa para captar sensações de melancolia, de solidão ou do nada, mesmo em cenas grupais barulhentas.
Talvez aquele vermelho seja o sinal para que nossa mirada não se engane pela estabilidade do preto e do branco das imagens, mas que se atente ao resquício de tinta que mancha também nossas mãos.
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Basado en hechos reales – derivas editoriales desde/con/contra el archivo, de Agustina Triquell [CdF, 2025]
Desde as primeiras páginas, sinto que Triquell me convida a reorganizar o tempo de maneira pouco confortável. Em vez de avançarmos em direção a um futuro visível, somos levados a caminhar com ele às costas, opaco, indeterminado, enquanto o passado se coloca à nossa frente, exigindo atenção, presença e responsabilidade. Essa inversão temporal atravessa a leitura e contamina a maneira como penso os arquivos: não como depósitos fixos, mas como territórios instáveis, que se movem conforme o modo como nos aproximamos deles.
A noção de tempo queer, que atravessa o livro, reforça esse deslocamento. Ao escapar da linearidade e da lógica do progresso, da vida regulada pelo relógio biológico, pela estabilidade e pela duração como valores universais e hétero-normativos, o livro abre espaço para outras intensidades vitais, frequentemente deslegitimadas ou consideradas perigosas. Pensar o tempo por esse viés desestabiliza tanto o futuro como promessa quanto o passado como herança intocável. E é justamente aí que o trabalho com arquivos ganha potência: não apenas nos arquivos das dissidências, mas em qualquer arquivo que precise ser reaberto, reolhado e desnaturalizado a partir de novos pontos de vista.
Comento aqui somente as provocações iniciais da autora. A obra segue com análises de livros de distintas editoras, dando conta, segundo Agustina, de duas grandes zonas de interesse e recorrência: o passado recente e as narrativas de si.
Contate a editora ou escreve pra gente, caso tenha interesse que a Lovely House importe este título.
Oxymoron, de Linda Zhengová [Untitled, 2025]
Quando me deparo com o título da obra de Linda Zhengová, Oxymoron [Untitled, 2025], sou imediatamente convidada a habitar o paradoxo. Essa figura de linguagem, que intensifica sentidos ao aproximar termos inconciliáveis, parece operar aqui não apenas como conceito, mas como método. Entro, então, no jogo proposto pela artista, tentando decifrar as chaves de um ensaio que se constrói na fricção entre opostos.
Linda nos conta que o impulso inicial desse percurso foi a tentativa desesperada de recompor-se após um relacionamento abusivo. Para isso, cria um alter ego noturno, não um disfarce, mas um dispositivo, um corpo outro que atravessa espaços e encontros, funcionando simultaneamente como proteção e exposição, e que lhe permite tensionar, e por vezes confundir, os limites entre vulnerabilidade e controle.
As imagens emergem da penumbra como aparições. Corpos repousam por instantes, fugazes, ou se oferecem com uma languidez vigorosa, entregando-se aos caprichos, às expectativas, aos olhares do outro. Há nelas uma ternura feroz, uma malícia que insiste em parecer inocente.
Oxymoron se apresenta, assim, como aquilo que a própria artista nomeia um “coquetel de pecados”, um gesto de travessia, talvez o único possível, para romper a anestesia emocional que havia tomado conta de Linda.
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