Quando resolvi editar os negativos de vidro de meu pai no final de 2015, o meu intuito era provocar uma viagem no tempo e na memória dos seus quatro irmãos mais velhos. Como tudo, com o passar do tempo, o trabalho foi se modificando e mais intensamente me modificando também. E da simples trajetória das imagens nesses quase 100 anos em que elas foram feitas, o trabalho hoje tem uma abrangência maior que propriamente a da tecnologia, ou das memórias que guardamos e carregamos conosco, mas uma profundidade no autoconhecimento e na questão da Cura pela Arte que ele envolve.
“Fotografar e manipular imagens é pensar na profundidade das relações humanas.” Assim, costumo definir meu trabalho, percebendo que a fotografia passou a ser para mim ao longo dos anos, um processo de cura. Como uma “Procura pelo Tempo Perdido”, tento tornar presente o ausente, mostrando o invisível das imagens entre o claro e o escuro, luz e sombra, positivo e negativo, nessa tentativa de materializar a saudade de um tempo que não vivi.
À medida que gradualmente crio ou “externalizo” minhas imagens em meus dispositivos móveis, trago à luz certos elementos do meu inconsciente que estavam anteriormente na sombra. As imagens conseguem exemplificar de maneira muito precisa a ideia de que fotografia também é construção do passado; sem a necessidade do elemento discursivo, para a exemplificar. O acesso ao passado via fotografia e memória, visto que, em alguma medida, depende de uma construção narrativa, sempre traz consigo uma dimensão incorporadora de ficção e surrealismo.
Além disso, o trabalho tem uma universalidade muito forte, pois os álbuns de família sempre foram muito comuns em nossa cultura. Não importa de quem são as imagens, a história de todos nós sempre foi parecida. Por outro lado, gosto de contar sobre as memórias de família focando no uso da tecnologia, pois também vejo nas imagens feitas por meu pai há quase 100 anos, o mesmo entusiasmo no “uso dos meios mais avançados de criação de seu tempo”. [ref. Arlindo Machado]
Nascida em São Paulo, Maria Cecília é designer gráfica, designer de joias e fotografa. Formada pelo IADÊ, FAAP, e Pós-Graduada no Curso de Processos, Gestão e Cultura Contemporânea no Madalena Centro de Estudos da Imagem / Unimes Universidade Metropolitana de Santos, tem participado de renomados grupos de estudos como com Juan Esteves, Eder Chiodetto, Gal Oppido entre outros. Viveu 6 anos em Munique, na Alemanha, e seu trabalho tem uma forte influência de artistas de língua alemã.
Seus trabalhos foram exibidos ultimamente em Paris, Caen, Florença, Roma e Budapest, onde recebeu prêmios em destaque. Entre seus últimos trabalhos reconhecidos ganhou 1º Lugar em 2020, na categoria Book/Fine Art, no PX3 – Prix de la Photographie Paris com um primeiro projeto para estudo do “Fotolivro Unforgettable”, chamado “Yes, I know where she lives”.
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